Tato

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Ela era fotografa e, a luz naquele fim de tarde estava propicia para tirar fotos da cidade e seu prédio era mais propicio ainda então subiu, lá na ponta uma moça, uma das suas vizinhas, uma sem esperanças e, disposta a se jogar. Para não assustar a pobre chegou nem tão lentamente e nem tão desesperadamente e falou nem tão alto e nem tão baixo:

-Meu anjo, o que está fazendo ai?

-Não vai me impedir, ninguém vai. Eu não tenho chance não tenho vida!

-Eu não quero lhe impedir não, queria conversar um pouquinho, só lhe atrasarei uns minutinhos, afinal moramos no mesmo prédio há um bom tempo e nunca nos falamos não é verdade?

-É que eu não gosto muito de conversar, sempre fui tímida.

-Pois bem, senta ai na beira um pouquinho. – as duas sentaram-se- Primeiro me diz porque quer se jogar daqui?

-Você está ouvindo?

-Ouvindo o que? Se a cidade esta vazia, não há barulho algum.

-Está ai, meu mundo vive neste silencio há anos. Sofro sozinha e com as pessoas, parece que luto em vão! Minha família já não mora mais perto de mim, minha vida anda tão vazia que às vezes parece que sou invisível e se não sou já vou me desfazer.

-“Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro, – Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Como o desterro de minh’alma errante, Onde fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade – é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia”. Ah, mocinha responde uma coisa?

-O que é?

-Nasceu aqui?

-Sim, nasci aqui. Morei aqui, mas nem sempre estive aqui. Conheci muitas cidades, uma mais que as outras, viajei demais com meu pai, era sempre muito bom tê-lo por perto, lembro-me que uma vez estávamos para sair de viagem e ele derrubou o RG no esgoto, foi muito engraçado e naquele ano não viajamos, mas foram boas férias!

Estava determinada a não deixar aquele mocinha fazer aquele bobagem, mas argumentos diretos não ajudariam em nada. Ao ver o seu sorriso, mesmo que quase instantâneo, teve uma ideia, talvez relembrar o passado de forma sutil mostrasse que ela ainda tinha vida.

-Olha só, daqui posso ver o shopping – é um lugar que se espera que todos que moram ali já deveriam ter visitado.

-Foi ali onde arranjei meu primeiro emprego. Consegui muita coisa trabalhando ali.

-E dá pra ver todas as escolas da cidade, vai ser uma grande foto!

-Foi naquela – apontando o dedo – em que me formei, na outra ali eu aprendi a ler.

-E veja só o parque e as pracinhas, tão lindos vistos de cima não acha? Essa cidade é privilegiada.

-Pois é meu pai junto com meu avó me ensinou a andar de bicicleta naquela pracinha, e na outra ali tive meu primeiro encontro, no parque uma vez fizemos um piquenique e foi quando cai de bicicleta pela primeira vez.

-E a praia, exuberante não é? Sempre vou lá para pensar!

-Minha mãe diz que foi ali que dei meus primeiros passos.

-Pois é, e olha só o hospital. Parece tão pequeno daqui de cima não?

-Foi ali que nasci. Há 22 anos. Como vivi pouco não acha?

-Mocinha, agora vou carregar minha câmera, ela está sem bateria. Perdi a chance de tirar boas fotos hoje, tiro amanhã se tiver a mesma luz. E já atrasei demais seus planos não acha?

Levantou-se, virou as costas e caminhando disse adeus, mas ouviu uma voz tremula.

-Espere, vou com você, acho que posso adiar a morte. Não é porque chamaram minha atenção no trabalho que eu devo desistir da vida. Tenho muito que fazer ainda, não acha?

 

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