Ao morador do apartamento 37

São quase oito da noite, acabara de chegar do trabalho, pegar a correspondência é o próximo passo. Contas, contas, contas, e uma carta dela. Sim da mulher que não teve pena de substituir amor em rancor. Teria rasgado se não fosse o pequeno pedido do lado de fora do envelope:

Não rasgue é importante.

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Tenho procurado, durante todos estes anos, um modo de falar com você. Se mandasse e-mail, por ser tão impessoal, você o excluiria. Se ligasse, não atenderia. Então lembrei que sempre me pedia para escrever uma carta, e eu preocupada comigo, mergulhada no meu egoísmo, nunca tinha parado para pensar no quanto isso era importante para você. Foi sempre você que sustentou nosso relacionamento, sempre cuidou do ‘nós’, enquanto eu só cuidava de ‘meu eu’.

Quando te deixei, dei motivos absurdos, ridículos. Um dia depois de ter ido embora do país, eu havia descoberto o porquê te deixei. Descobri que eu nunca me achei merecedora do seu carinho, amor. Tinha tanto medo de dar o próximo passo e seguir adiante com você. Assustei-me ao pensar que teria de dar mais de mim. Amar para dar certo tem que ter reciprocidade.

Nós éramos tão jovens, eu era tão maluca, e dei ouvidos às minhas dúvidas. Quando, de forma estúpida, te deixei aquela mensagem na caixa postal dizendo que ia embora, eu só pensava que tinha que cuidar da minha carreira, que não tinha tempo para mais alguém na minha vida.

A verdade é que eu fugia desesperada dos meus sentimentos.

Hoje, eu vejo que procurar minha carreira não valeu de nada. Hoje estou sozinha, morrendo quando penso que outra pode estar no lugar que um dia me pertenceu.

Com essa carta, eu não espero de maneira alguma que venha a me perdoar. Eu queria apenas pedir que não se culpe, e que se um dia se culpou, se (des)culpe. Você nunca errou, foi eu quem sempre errou, errei por nós dois.

Só quero que saiba que se nos tivéssemos conhecido em outros tempos, teria cuidado melhor das flores que me dava. Hoje eu valorizo tal presente.

Para me despedir, eu quero desejar a você toda felicidade, porque eu tenho a amargura por nós dois.

 

Enquanto lia boas e más memórias voltavam, quando terminou de ler, dobrou a carta, guardou-a no envelope, e …

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