Poeminha Amoroso

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…
“Poeminha Amoroso”

 

Cora Coralina

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O poder das reticências.

Na escola, ninguém aprende logo sobre pontuação, e quando se aprende, bom dá um pouco de trabalho para aprender.

Não me interprete mal, reconheço o valor da vírgula, ponto final, travessão em fim… O texto está cheio delas e seria difícil entender o que realmente quero dizer sem eles.

Eu gosto das reticências e coloco onde der, e as vezes onde não dá, porque ela não me dá limite de tempo como um ponto final, eu prefiro não por um final, é como se depois dela pudesse apenas vir uma nova pagina. Não posso esquecer também do suspense bom ou ruim que ela dá. Ela causa impacto que um ponto apenas não daria conta, por isso ela vem em trio.

O caso é que nenhuma outra pontuação tem o poder, tem o efeito de uma reticência.

Companhia de elevador

Imagem

 

1° andar, 2° andar, 3° andar… Travou…

-Ah! Que ótimo! O elevador resolve parar bem no dia em que eu estou atrasada.

-Nem fala…

-Só que eu não falei com você.

-Não, eu só estava resmungando também.

Ela olhou pra ele com um olhar cheio de raiva, ele retribuiu no mesmo patamar.

-Sabe, eu sou a ultima pessoa na Terra que alguém escolheria para ficar presa junto no elevador.

-Desculpe, mas eu devo discordar, eu sou a ultima pessoa.

-Duvido!

-Então me convença.

-Ah, sempre disseram que sou esquisita, e alem de tudo mal-humorada e muito irritante. As vezes que resolvo falar, falo sobre coisas que não interessam às pessoas, assim ou eu afasto, ou eu assusto. E você, me convença…

-Me consideram assustador. Homem mau e cheio de raiva, amargo. Em geral eu só não quero que deem palpites no que eu faço, ou na minha vida, mas se servir de consolo sou uma pessoa muito criativa, mas talvez mal compreendido.

Suspirou e disse:

-Seus anos de raiva reprimida tem que sair de alguma forma.

-Pode ser verdade. Você é nova aqui? Nunca te vi antes.

-Eu não uso o elevador, só escada. Usei hoje porque estava atrasada. A ideia de ficar presa numa caixa de metal, sem sinal de celular, junto com um estranho, (não se ofenda), não é muito atrativa, na verdade me amedronta. Então subo meus quatro andares de escada.

-Quatro andares? Pelo menos deve fazer bem à saúde. Eu trabalho lá no 6° andar, na edição. A propósito eu sou Marcos, só para deixarmos de ser estranhos.

-Manuela, mas a ideia de ficar presa no elevador ainda não é boa.

Ele sorriu, e ela disse com sarcasmo:

-Olha, você sorri.

Ele responde no mesmo tom:

-E você faz piada.

– O elevado voltou a funcionar, obrigada pela companhia.

A porta se abriu e ela saiu, mas ele segurou a porta e disse:

-Hei, Manuela, o que você acha de juntarmos nosso comportamento assustador, nosso mau humor, nossa irritabilidade e nosso assuntos sem graça e almoçarmos amanhã?

-Por mim, tudo bem. Só que,… Chega de elevadores. Eu vou de escada.

-Até mais companhia de elevador.

-Até…

Cansada de que?

Qualquer um que passa por aquela rua, e visse aquela cena; uma mulher sentada na calçada, despenteada, mal vestida e falando sozinha, acharia que ela era louca, mas não aquele cara. Sentou ao seu lado, e começou a falar:

-Moça, você está bêbada?

-Não, e nem drogada.

-Ah, então você é louca?

-Não sou louca não,… Pelo menos eu não era.

-Ah!… Escuta, o que você está fazendo, então sentada aqui e agindo como louca?

-O fato de estar agindo como louca, pelo menos no seu ponto de vista, não quer dizer que eu realmente seja louca.

– Tudo bem, vamos fazer um trato? Paro de te chamar de louca, e você me conta o que está fazendo.

Ela olhou tudo de forma séria e respondeu:

-Estou escrevendo sobre o que as pessoas não conseguem enxergar.

-Então você também não pode enxergar.

-A maioria das pessoas. Melhor assim? Façamos outro trato, se você ficar quieto, e parar de me corrigir eu conto o que está acontecendo.

-Fechado! – E apertaram as mãos.

-Você já reparou que o mundo é muito exigente? Ele quer que você faça mais, consiga mais, seja mais, e isso esgota. Eu moro aqui nesse pequeno condomínio, ai só moram pessoas mortas…

-Zumbis?

-Não neste sentido, você disse que iria ficar quieto.

-Desculpa, Prossiga.

-O fato é que hoje, acordei sobrecarregada, telefone e celular tocavam sem parar, e-mails não paravam de chegar e problemas que mesmo que eu arrumasse uma solução de nada adiantaria. Então surtei… E me demiti. E vim aqui com o bloco e a caneta pra me acalmar e me reencontrar. Eu estou muito cansada, na verdade. Quando eu era criança eu escrevia muito, gostava de montar historias na minha cabeça, talvez eu volte a fazer isso mais vezes.

-Sabe, eu não entendi uma coisa, do que realmente você esta cansada?

-Cansada de esperar por algo que não existe, por precisar de coisas que não tenho, depender de um tempo que não passa, sonhar sonhos que não vão se realizar.

-Então por que fazia isso?

-Porque eu estava morta, e voltei a viver.

-Então você é que era um zumbi.

– Falei figurativamente.

-Eu sei, estava apenas testando sua paciência.

Ela sorriu, e continuou:

-O fato é que agora eu vou mudar a minha vida, começando por mudar dessa casa, desse lugar…

-Já que quer mudar, vamos ir tomar um café, pessoas vivas tomam café.

-Não saio com pessoas estranhas.

-Tudo bem… A propósito, meu nome é Charles.

-Julia.

-Pronto, agora levanta e vamos tomar um café, não somos mais estranhos, ai te conto sobre a minha vida, e ai seremos menos estranhos ainda.

-Tudo bem, mas espera… eu não era louca?

 

Nada

Tum, Tum, Tum, bate os dedos na mesa…

Tum, Tum, Tum, bate o lápis na folha…

Tum, Tum, Tum, bate as palavras que não querem sair.

 

Antes fluíam, com facilidade.

Hoje, parece que nem sei o português.

Hoje, é como se abrisse os olhos, e não vesse.

 

Tum, Tum, Tum, mas nada sai…