O sonho

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

Clarice Lispector

Saudades

Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas se vai mirar!

Nessas horas de silêncio,
De tristezas e de amor,
Eu gosto de ouvir ao longe,
Cheio de mágoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão solitário
Com esse som mortuário
Que nos enche de pavor.

Então — proscrito e sozinho —
Eu solto aos ecos da serra
Suspiros dessa saudade
Que no meu peito se encerra.
Esses prantos de amargores
São prantos cheios de dores:
— Saudades — dos meus amores,
— Saudades — da minha terra ! 

 

Casimiro de Abreu

SE EU DE TI ME ESQUECER

Se eu de ti me esquecer, nem mais um riso
Possão meus tristes labios desprender;
Para sempre absondone-me a esperança,
         Se eu de ti me esquecer.

Neguem-me auras o ar, neguem-me os bosques
Sombra amiga, em que possa adormecer,
Não tenhão para mim murmúrio as agoas,
         Se eu de ti me esquecer.

Em minhas mãos em aspide se mude
No mesmo instante a flôr, que eu for colher;
Em fel a fonte, a que chegar meus labios,
         Se eu de ti me esquecer.

Em meu peregrinar jamais encontre
Pobre albergue, onde possa me acolher;
De plaga em plaga, foragido vague,
         Se eu de ti me esquecer.

Qual sombra de prescito entre os viventes
Passe os miseros dias a gemer,
E em miseros dias a gemer,
E em meus martyrios me escarneça o mundo,
         Se eu de ti me esquecer.

Se eu de ti me esquecer, nem  uma lagrima
Caia sobre o sepulchro, em que eu jazer;
Por todos esquecido viva e morra,
         Se eu de ti me esquecer.

 

Bernardo Guimarães

Armas

– Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
– Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?…
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: – A língua humana!
 
Fagundes Varela 

Carta de Fernando Pessoa à Ophelia

Ophelinha:
Agradeço a sua carta. Ella trouxe-me pena e allivio ao mesmo tempo. Pena, porque
estas cousas fazem sempre pena; allivio, porque, na verdade, a unica solução é essa – o não
prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de
outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amisade inalteravel. Não me nega a
Ophelinha outro tanto, não é verdade?
Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino
fosse gente, a quem culpas se attribuissem.
O Tempo, que envelhece as faces e os cabellos, envelhece tambem, mas mais depressa
ainda, as affeições violentas. A maioria da gente, porque é estupida, consegue não dar por isso, e julga
que ainda ama porque contrahiu o habito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente no
mundo. As creaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade d’essa illusão, porque nem
podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por elle a estima,
ou a gratidão, que elle deixou.
Estas cousas fazem soffrer, mas o soffrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por
fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que não são mais que partes da
vida?
Na sua carta é injusta para commigo, mas comprehendo e desculpo; decerto a escreveu
com irritação, talvez mesmo com magua, mas a maioria da gente – homens ou mulheres – escreveria,
no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um
feitio optimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a
felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.
Quanto a mim…
O amor passou. Mas conservo-lhe uma affeição inalteravel, e não esquecerei nunca –
nunca, creia – nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua
dedicação, a sua indole amoravel. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe attribúo,
fossem uma illusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim
que lh’as attribuisse.
Não sei o que quer que lhe devolva – cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver
nada, e conservar as suas cartinhas como memoria viva de um passado morto, como todos os
passados; como alguma cousa de commovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos
annos é par do progresso na infelicidade e na desillusão.
Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara
quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante
o outro, como dois conhecidos desde a infancia, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora
na vida adulta sigam outras affeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a
memoria profunda do seu amor antigo e inutil.
Que isto de «outras affeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ophelinha, e não
commigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existencia a Ophelinha nem sabe, e está
subordinado cada vez mais á obediência a Mestres que não permittem nem perdoam.
Não é necessário que comprehenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua
lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.
Fernando

 

Quer ler mais? Ou ver as respostas de Ophelia? http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=6820

 

Soneto 96

“De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.”

Willian Shakespeare

O Amor

O amor quando se revela
Não se sabe revelar
Sabe bem olhar pra ela
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar

Mas quem sente muito cala
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala
Fica só inteiramente.

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar
Já não terei que contar-lhe
Porque lhe estou a falar.

Fernando Pessoa

Autor desconhecido…

Hoje estou postando esse texto porque muitos talvez sintam-se assim:

Eu sou feita de sonhos interrompidos, detalhes despercebidos, amores mal resolvidos. Sou feita de choros sem ter razão, pessoas no coração, atos por impulsão. Sinto falta de lugares que não conheci, experiências que não vivi, momentos que já esqueci. Eu sou amor e carinho constante, distraída até o bastante, não paro por instante. Já tive noites mal dormidas, perdi pessoas muito queridas, cumpri coisas não-prometidas. Muitas vezes eu desisti sem mesmo tentar, pensei em fugir para não enfrentar, sorri para não chorar. Eu sinto pelas coisas que não mudei, amizades que não cultivei, aqueles que eu julguei, coisas que eu falei. Tenho saudade de pessoas que fui conhecendo, lembranças que fui esquecendo, amigos que acabei perdendo. Mas continuo vivendo e aprendendo.

 

Lágrimas da Vida

Hoje eu queria compartilhar um poema de um dos meus escritores preferidos:

Se tu souberas que lembrança amarga
Que pensamento desflorou meus dias,
Oh! tu não creras meu sorrir leviano,
Nem minhas insensatas alegrias!
 

Quando junto de ti eu sinto, às vezes,
Em doce enleio desvairar-me o siso,
Nos meus olhos incertos sinto lágrimas…
Mas da lágrima em troco eu temo um riso!
 

O meu peito era um templo – ergui nas aras
Tua imagem que a sombra perfumava…
Mas ah! emurcheceste as minhas flores!
Apagaste a ilusão que o aviventava!
 

E por te amar, por teu desdém, perdi-me…
Tresnoitei-me nas orgias macilento,
Brindei blasfemo ao vício e da minh’alma
Tentei me suicidar no esquecimento!
 

Como um corcel abate-se na sombra, 
A minha crença agoniza e desespera…
O peito e lira se estalaram juntos…
E morro sem ter tido primavera!
 

Como o perfume de uma flor aberta
Da manhã entre as nuvens se mistura,
A minh’alma podia em teus amores 
Como um anjo de Deus sonhar ventura!
 

Não peço o teu amor… eu quero apenas
A flor que beijas para a ter no seio…
E teus cabelos respirar medroso…
E a teus joelhos suspirar d’enleio!
 

E quando eu durmo… e o coração ainda
Procura na ilusão tua lembrança,
Anjo da vida passa nos meus sonhos
E meus lábios orvalha d’esperança!

Álvares de Azevedo